Ao olhar as imagens constantes que sai do ecrã da televisão, jornais e revistas e pelo som das rádios, qualquer pessoa sensível não fica indiferente às imagens e sons que observa. Sejam as imagens e sons reais manipuladas para criar outras imagens, só por observar aquilo que nós é mostrado, para pessoas que pensam nas coisas como elas são, faz criar um sentimento de revolta, de raiva. Raiva não contra os refugiados, nem contra as autoridades locais que tem de lidar com a situação, mas contra os jornalistas, contra as televisões, contra os políticos que têm a coragem de mostrar e deixar mostrar estas imagens cruéis, mortíferas e dolorosas, mas se calhar falsas...
Usa-se da Liberdade de Expressão, para abusar da imagem das crianças, das pessoas fracas, para explorar através de entrevistas orientadas, para atingir determinadas respostas a dar pelas pessoas que olham e ouvem. Neste cenários todos, neste circo, cumulativamente, ouço comentadores ridículos, em tempo de antena, com os seus comentários emocionais, a mostrarem-se...
Mas, caiemos na real, com um simples exemplo pessoal, vivido.
«Há uns anos atrás, num comboio da linha de Sintra, acompanhado de um colega, fomos abordados por uma equipa de fiscalização da CP para colaboramos na identificação de um grupo de indivíduos que se faziam transportar no comboio sem titulo de transporte válido e ainda sem qualquer documento de identificação. Chegados junto dos indivíduos apercebi-me que alguns se faziam de desentendidos, dizendo não falar "português", acenando com a cabeça às perguntas que lhes eram feitas. Nesse grupo, havia um individuo, com mais de 50 anos, que mostrava uma cara cansada, estava muito magro e mantinha os olhos fixos no chão. Usando a língua inglesa, aproximei-me e iniciei conversa com o individuo que obviamente falava muito bem inglês. Senti que o Homem, ficou diferente... assim conversei com ele e fiquei a saber que tinha emigrado para Portugal, à procura de uma vida melhor, para ele e para a família. Era Pai de duas meninas... na terra dele trabalhava num hospital público, onde era cirurgião cardio-vascular, mas só ganhava 4 contos... em Portugal, trabalhava para um empresário angolano, como servente nas obras. Fiquei igualmente a saber que já não recebia qualquer remuneração à 2 meses e o patrão lhe tinha retido o passaporte para o manter condicionado àquelas condições profissionais. Perguntei-lhe como se não tinha dinheiro, como comia. Respondeu-me que já não comia há vários dias... afinal tinha passaporte e a fotografia do Homem por lá era mais «gordo». Senti a minha cabeça a quebrar com as palavras do revisor preocupado mais com a identificação para passar a contra-ordenação que me pareciam provocações, pelo que, simplesmente, decidi ignora-lo . Conduzido o cidadão à esquadra, porque foi o único que não se conseguiu identificar ou comprovar identificação, quando cheguei disse imediatamente ao graduado que tínhamos ali várias situações e que precisamos que a PSP ou outra entidade fornecesse rapidamente alimentação àquele individuo. Atendendo às horas e se calhar à pouca vontade do graduado de serviço, dali não veio nada... contudo, como noutras alturas e apesar de me ter sido ordenado para voltar ao giro, entendi que não poda sair dali assim... mais uma vez, sai da esquadra atravessei o espaço da estação da CP de Queluz-Massamá, dirigi-me ao estabelecimento que existia à frente, pedi dois pregos (bife+pão), um sumo e paguei ao funcionário. Cheguei ao átrio da esquadra onde permanecia o cidadão, ofereci a comida e bebida (ofereci, não lha dei) e, em inglês, disse-lhe:" Vá embora Homem, vá para junto da sua família, para a sua terra... lá tem um motivo para lutar, para sobreviver,a família dar-lhe-á a Força e certamente viverá com mais Honra!» Antes de sair da esquadra para continuar o giro, observei lágrimas no rosto, enquanto devorava a comida... mas eu, acreditem, sentia-me mais envergonhado, mais triste, mais revoltado certamente que ele.
O meu País que o havia acolhido e que permitia que aquele ser humano fosse tratado por exploradores e pelas instituições assim daquela forma, dinamitava o meu pensamento. Que frieza, que desumanidade... Não sei o destino dele, nunca mais o vi... »
Além deste Ucraniano, é verdade que ofereci refeições e bebidas a muitos outras pessoas que vi estar necessitadas, mas pagas com o meu dinheiro. Não lhes dei dinheiro... nem andei a mendigar refeições gratuitas aos estabelecimentos, para, em nome de outros, comer também qualquer coisa e dar as sobras aos «outros»... naqueles momentos dei o que podia dar e tinha possibilidade para dar sem me prejudicar a mim...
É isto que me surpreende continuar a existir: a hipocrisia a ser utilizada e manipulada com o sofrimento de outros porque ninguém «oferece nada», muitos «dão» o que não têm: Bondade, Compaixão, Força e Coragem, Solidariedade e Espírito de Ajuda.
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