quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

é da minha vida que eu falo - janeiro - 2024


 O PUBLICO

«José quer retirar-se,
“mas estão a atrasar as reformas”.
Já tem mais de 55 anos e quer ir para casa, mas não o deixam. José Santos, natural de Moimenta da Beira, agente principal da PSP, cumpre serviço na investigação criminal em Lamego. “Já cumpri 36 anos de serviço e tenho mais de 55 anos e queria retirar-me, mas como não há efectivos suficiente estão a atrasar as reformas.”
Candidatou-se à PSP depois de ver um anúncio na televisão e de o pai, que era militar da GNR, lhe ter perguntado se já não estava na altura de ir trabalhar. “Tinha 23 anos, estava em casa sem fazer nada, já tinha cumprido o serviço militar e acho que as relações públicas da PSP devem ter funcionado muito bem comigo, porque eu, até ali, nunca tinha pensado ser polícia na vida”, conta, acrescentando que, na realidade, já tinha desistido do acesso ao Curso de Sargentos do Exército. Hoje agradece ao pai o ultimato, porque o fez “largar as saias da mãe” e obrigou a “despertar para a vida”.
Depois de um estágio de dois anos em Viseu acabou por ir parar a Lisboa. Foi em 1993, quando ainda existia a Divisão de Segurança do Comando da PSP que se destinava a garantir quer a segurança de instalações sensíveis da área de Lisboa quer a protecção de pessoas, e que depois passou a chamar-se Corpo de Segurança Pessoal. “Dormi duas noites no carro, porque não havia camaratas para todos e houve colegas que dormiram nos bancos do Jardim da Estrela”, recorda, explicando que o problema da falta de habitação para os polícias não é de agora.
“Ao segundo dia parecia um zombie e um colega falou-me de uma senhora que tinha um quarto disponível. Só lá cabia a cama.”
Nesse primeiro Natal, foi colocado a fazer segurança à porta da Embaixada de Espanha às 21h na noite da consoada e uma hora depois era surpreendido por um cachorro.
“Não gostei nada de passar o Natal sozinho com um cão, assim, na rua”, diz.
No primeiro mês em Lisboa já tinha gastado o dinheiro que tinha poupado e disse aos pais que com o que recebia não conseguia suportar as despesas, pelo que ponderava deixar a PSP. Os pais mostraram-lhe um apartamento em Massamá. “Pediram dinheiro a familiares e ajudaram-me a comprá-lo.”
Depois fez um curso de Electrónica Analógica e decidiu fazer serviços remunerados. “Era a única forma de ganhar mais dinheiro. Fiz durante seis meses. Assim que juntei dinheiro, nunca mais fiz, excepto aqueles que temos mesmo de fazer, como é ocaso dos jogos de futebol.”
Um dia deu consigo a ver vídeos da sua filha. “Há coisas que não tinha mesmo presenciado sobre a vida dela. Até aos 15 ou 16 anos da minha filha não presenciei. Dei-me conta disso nos vídeos: que me dediquei à profissão e perdi muitos momentos da minha pequerrucha. E para quê? Por um Governo, um Estado que não me reconhece valor. E eu dei tanto.
As vezes que me vesti de Pai Natal e lhe dei um beijo e me vim embora…”
José Santos não esconde a mágoa que sente quando olha para a folha do salário. “Não compreendo como é que estes jovens, com as oportunidades e a informação que têm, se vêm meter nisto. No meu tempo era uma necessidade. Como não havia mais nada, a PSP ou a GNR eram uma boa oportunidade. Eu recebo líquidos 1500 euros, estou na posição 18 e faltam duas posições para atingir o topo.”»