Naquele dia ouvimos a comunicação via rádio para a patrulha se deslocar para a estação de Queluz da CP onde uns indivíduos de etnia cigana estavam de banca montada nas plataformas do acesso dos passageiros aos comboios e já haviam ameaçado de morte os funcionários da CP e recusavam-se a abandonar o local.
Naquele dia, ainda era "maçarico" naquele serviço, logo, ainda estava na fase de aprendizagem...
Quando chegamos, de facto havia nas plataformas dezenas de ciganos, principalmente mulheres e crianças e, no chão, em cima de uns cobertores, sacos, malas, sapatos, roupa, relógios, cintos, bijutaria, perfumes... uma autêntica feira.
Abordamos as feirantes e, de forma educada, calma, com a tal urbanidade, firmeza e atitude, pedimos que recolhessem os produtos e abandonassem as plataformas.
Sem surpresas, ouvimos as habituais bocas: «racistas«, «só perseguem a elas porque são ciganos», « não prendeis os ladrões, tendes medo», «havias de morrer magrinho e cheio de doenças»... vocês nem imaginam!...
Contra vontade, ao coro das mulheres e crianças, devagar, devagarinho, lá iam vendendo porque havia pessoas indiferentes àquilo, porque era prática habitual a venda ou dentro da estação ou na rua, coisa que eu desconhecia.
Antes que a paciência acabasse, decidi tomar conta da situação e, como mais antigo que o colega que me acompanhava, deixei de ser delicado, e passei à fase de proferir "ORDENS", legais e legitimas, sob pena de cominação, quer de autuação e apreensão de todo o material.
De forma imprevista e repentina, em questão de segundos, vejo-me e o colega rodeado de mais de 10 machos... velhos e jovens, todos ou quase todos, com barbas preta e branca, alguns bem sujas, os mais velhos de chapéus altos e de forma redondo e cor preta, novidade para mim, mas todos eles vestidos de preto.
Nem imaginam as "ameaças"... proferidas com gestos de degolar, disparar e tudo o mais.
Durante aquele desenrolar, há um infeliz que teve a desfaçatez de achar que me ameaçava ou intimidava dizendo «um dia mato-te» - ao policia! E, como não surtiu efeito mudou de alvo e dirigiu a ameaça de morte à pessoa que se calhar, na cabeça dele, imaginária ou mera verborreia, achava que eu tinha, e tinha...
O que aconteceu a seguir... fica para o livro que um dia escreverei.
Em jeito de conclusão, andei na linha de Sintra até 2001 e encontramo-nos muitas vezes: eu, os ciganos e ciganas.
Bastava sair a porta do comboio que a área ficava limpa de venda...
Não fosse desconfiado, acho que aquelas pessoas passaram a gostava do "Sr. Santos" porque apesar do que aconteceu naquele dia, nunca apreendi qualquer peça ou produto àquelas pessoas.
Mas também nunca houve necessidade!
