Naquele inicio de noite, entretido com os meus pensamentos, à frente da Embaixada de Espanha, na rua do Salitre, em Lisboa, sozinho e abandonado, uniformizado com a farda da PSP, ao serviço da 2 Esquadra de Segurança a Instalações Diplomáticas, da Divisão de Segurança, fui acordado por uma voz aguda que provinha do cimo da rua, ali em frente ao Centro Jean Monnet. Olhei e vi uma VIP e mais o seu canideo, alias personagem habitual descer aquela rua.
Quem conhece a rua do salitre é uma rua de sentido único que convida a acelerar. Por isso naquele noite, um triste de um condutor ia ter o maior azar da vida dele ao sair daquela rua bem amassado e passado.
Atento, como sempre, adivinhei que algo ia acontecer. E aconteceu!
O caraças do cão fugiu das rédeas da senhora, mete-se à frente do carro que descia a rua, o condutor trava e "pum". Já era um cão.
A senhora entra aos gritos "ai o meu menino", "ai o meu menino", ao mesmo tempo observo que o cão, sai por debaixo do carro e sai na direcção oposta à da dona.
Surgem 4 ou 5 homens que saíram de um café, tasca ou sei lá o que lá havia naquela altura que ao som do ruído do "ai o meu menino", " ele matou o meu menino", à portuga, um deles nem pergunta nada ao condutor. Pela janela, aberta, esmurra-o, uma, duas... sei lá perdi a conta. Ao mesmo tempo tirava o rádio da cintura e pressionava o botão enquanto para o micro e para a rede, dizia "Tejo 80", "Tejo 80", " Envie reforço para a rua do Salitre...", "pancadaria...".
Nos meus cerca de 72 kg, muito bem preparado fisicamente, com menos de 30 anos, fazer um sprint até ao local foi canja.
Contudo, junto à viatura, já o condutor estava no chão, deitado, retirado porque abriram a porta e à porrada teve que ir para o chão, enquanto um deles gritava "não sabias vir devagar", "assassino"... ao mesmo tempo o rádio não se calava "Brioso (...) diga o que se passa" e a velha "ai o meu menino"...
Assim que cheguei perto do Rambo, com o movimento de corrida, rodopiei sobre mim próprio em salto, no ar desferi um pontapé no peito do tipo que foi projecto para aí 2 a 3 metros... a subir! Há outro que coloca a mão no ombro, desferi-lhe um pontapé lateral, projectei-o mais 2 ou 3 que estavam atrás, entrando todos pelo mesmo lugar que haviam saido. Quanto aos demais, pedi-lhe calma e que tivessem moderação porque o menino era um cão e o cão estava do outro lado do passeio...
Como sempre, mais de uma dezena de pessoas, 1 policia, e um caralho de uma voz no rádio que não se calava... não foi difícil serenar os animo. O Rambo depois de saber que o menino era um cão e que havia sido a dona que o tinha deixado fugir, quis logo bater na velhota. O triste, todo partido e com sangue na cara do condutor só me perguntava se podia ir embora - de nada valia dizer-lhe que se quisesse apresentar queixa eu detinha aqueles indivíduos todos-, e o caralho do rádio a "berrar". Desliguei o rádio. Depois de serenar tudo... umas desculpas para aqui, outras para ali, recusar beber umas cervejolas com os voadores dos pontapés, lá regressei ao meu posto, junto à porta da Embaixada.
Uns 15 minutos depois, aparece um CP, o Archote, com o subchefe X e condutor Y, despreocupados, calmos! O que é que se passa?
Um cidadão que se encontrava ao meu lado, era pessoa habitual a conversar comigo, quando ali estava sozinho, 3 horas a guardar uma porta, lá explicou o que tinha acontecido. Nem lhes dirigi a palavras porque só pensava em fazer àqueles dois policias o mesmo que os anteriores haviam feito ao condutor.
Naquele dia aprendi que o Tejo 80... era uma treta.
Que, apesar de estar apenas há uns dias naquela esquadra, os vícios, as atitudes dos meus camaradas, ou me safava sozinho, ou era comido pelos lobos.
Que para sobreviver em Lisboa, com a formação de auto-defesa policial (2 aulas em 6 meses), sem apoio de colegas, teria de ser Eu próprio, teria de SER à minha maneira porque a PSP não me tinha preparado para ser PSP, nem havia apoio de outros.
Depois daquele dia... tudo mudou e nunca mais precisei de ninguém para fazer o que tinha de ser feito.
Se quiserem escrevo data, hora e nomes...
Nota: antes de ser "bófia" pratiquei Taekwond, no Loios em Viseu e aperfeicei técnica batendo num saco de areia, pendurado preso a uma trave num armazém dos meus pais, em Toitam.

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