«Era uma sexta-feira, a semana
tinha sido complicada, havia participado num exercício de campo e as duas
noites últimas noites haviam sido dormidas em cima do banco da berliet ali para
os lados de Campo Maior. Enquanto aguardava pelas 18H45, altura em qua aparecia
o autocarro da EAVT que me haveria de trazer de Lisboa para Moimenta da Beira, pedi
a um casal de pessoas que junto a uns sacos e malas aguardava pelo mesmo, que
me acordassem se adormecesse, porque tinha-me deitado, junto ao tronco da uma árvore,
na relva, tendo como travesseiro o saco de viagem, aquele saco verde que o exército
disponibilizava aos soldados. De referir que estava devidamente uniformizado
com o uniforme de soldado de infantaria, do exercito de Portugal. Algures entre
a realidade e o sonho ou pesadelo sinto uma pressão na garganta, um toque
fazendo pressão para baixo na testa e uma voz “não te mexas! Dá-me a tua
carteira?”. Até podia pormenorizar aqui a história descrevendo com os nomes das
designações técnicas do que se passou a seguir, mas por aquilo que depois me contaram,
simplesmente, reagi, agi e quase voltei a reagir… de um momento para o outro,
havia agarrado o pulso da mão da pessoa que pressionava a faca na garganta, ou
navalha ao mesmo que eu girava o meu corpo, deitado de barriga e cara para
cima, com força suficiente para manter a faca na posição em que estava, desferindo,
ao mesmo tempo, um pontapé nas pernas do tipo, fazendo desequilibrar-se e cair,
com força e violentamente, com a cara na relva… de presa passo a caçador…
quando ouço “ não faças isso… estragas a tua vida…”
Passados uns minutos ou segundos,
já eu com a faca ou navalha na minha mão, estava sentado em cima do «agarrado»,
a inalar um cheiro nauseabundo a «drogado», a «morte lenta». A olhar para
aquele monte de carne, levantei-me, em silêncio, enquanto observa os olhos as
mãos, mentalizava-me de tudo e todos os que me rodeavam, não sei se por
instinto de sobrevivência se para analisar ameaças, se por vergonha… se…
“Que pouca vergonha! Estes
militares armam-se os maiores… a bater num desgraçado, quase que lhe cortava o
pescoço… tem vergonha… chamem a policia… tem de ser castigado…”- recordo-me de
uma menina, bem vestida, aparentando ser estudante, acompanhada de outros
jovens, guedelhudos e com aspecto de «fumarem umas brocas», a dizer isto a
acusarem-me.
As pessoas mais velhas, as
pessoas que possivelmente haviam visto o inicio, o desenrolar dos
acontecimentos, nem falaram, ninguém me defendeu, só ouvia vozes inquisidores…
Entretanto, o agarrado,
levantou-se, sem dizer nada… apesar de meio pedrado, via-se pelo aspeto dos
olhos, do corpo, foi-se embora… inicialmente a caminhar de forma tropeçada desequilibrada
e depois numa espécie de corrida aos «esses»...
A seguir, apareceu o autocarro,
peguei no meu saco, na boina que estava caída no chão, e caminhei em direção da
«juventude irrequieta», via-se que eram «Lisboetas», na «vontade» de só, só
mesmo, esvoaçarem uma pequena tentativa de fazer alguma coisa… milhares de hipóteses…
só que eles começaram a arredar-se abrindo caminho para a minha paragem… até que
entrei no autocarro … no autocarro só rezava para não aparecer a policia… a policia não apareceu e fui para casa… para
a minha aldeia.»
Este episódio, aconteceu algures ao
tempo de 1989 ou 1990. De um momento para o outro, veio à memória, depois de
ler algo no facebook, proferido por alguém «que os europeus estão a ficar efeminizados».
Ao contar aqui esta caso real,
gostaria que os leitores não pensem que fui ou sou uma espécie de Bruce Lee, um
Chuck Norris, ao Van Damme o herói cá do sítio… a Moral que pretendo dizer é
que, naquele dia, as pessoas que viram que a vítima era eu, calaram-se! Nem
sequer esboçaram uma palavra para me defender… quem não tinha visto nada,
defendeu aquilo que às primeiras impressões lhes parecer ser a «vítima», o
agarrado, o caçador…
Acusaram-me, apontaram-me o dedo…
mesmo que eles estivessem a mentir ou a presumir coisas…
Contudo, a Moral que eu naquele
dia aprendi foi: “Evitar confrontos…”
Se aquela voz não tivesse dito «NÃO FAÇAS ISSO…»
Mas o que eu fiz não foi defender-me, mesmo que tivesse «quase
cortado o pescoço ao agarrado»?! Será que ele também tinha ouvido a voz de «NÃO
FAÇAS ISSO?!»

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